- POR QUE EU ABRI UM BRECHÓ -

Atualizado: Abr 7


A verdade por trás da parte bonita de empreender.

Acho que já passou pela cabeça de muita gente abrir um brechó, né? Pra quem curte a pegada de reusos, talvez a ideia de ter um brechó seja uma das primeiras fugas, especialmente financeira, pra muita gente que quer começar o próprio negócio. “Não pode ser tão difícil assim vender peças usadas, certo?”. Errado.

Eu sou arquiteta, me dediquei algum tempo à arquitetura, ingressei num mestrado na em habitação social na UFRJ e nunca fui infeliz na área. Aliás, amo e gostaria muito que meus dias tivessem 48 horas pra eu poder me dedicar mais à arquitetura também, mas, ainda no Rio de Janeiro, eu entrei num tobogã de escolhas que me levou a outro caminho. Na época, eu trabalhava numa construtora grande, carteira assinada, minha ex-chefe me propôs reduzir minha carga horária na empresa pra eu poder me dedicar ao mestrado, tudo nos conformes pra uma carreira consolidada de arquiteta que estaria por vir. Eu queria, mas a vida não quis – calma, isso não foi um drama! Paralelo ao meu trabalho, eu havia começado um curso de figurino, bem suave, só pra ver de qual era essa história de audiovisual, e não esperava absolutamente nada – em termos de carreira – daquele curso. Foi mais uma das escolhas aleatórias da minha vida que mudou todo o meu plano inicial e me botou num universo cheio de buracos negros que me engolem até hoje e me levam pra muitas dimensões.

Assim que o curso acabou, imediatamente fui convidada a participar de um longa-metragem como estagiária da equipe de figurino. Leia: eu aceitei. Até hoje eu não sei o que passou pela minha cabeça em ter aceitado a proposta, um ato 0% racional, acho que eu ainda não levava a vida muito a sério naquela época. Talvez a ideia de poder trabalhar ao ar livre, longe da rotina de um escritório, tenha me seduzido bastante. Não pensei em dinheiro (troquei um salário de arquiteta por um de estagiária), não pensei em futuro (uma gravação dura, em média, 3 meses e depois disso, ou você tem bons contatos no meio, ou você fica novamente desempregada) e não pensei em tudo aquilo que estava construindo como arquiteta. Mas fui, aprendi muito, trabalhei muito (12 horas por dia, mais o tempo de deslocamento até o set), e me virei como pude durante essa fase. Alguns outros trabalhos surgiram no meio do caminho, houve uma oportunidade relâmpago de trabalhar no Projac, na pré-produção de uma novela da Globo, conheci muita gente no meio e prometi pra mim mesma que nunca mais trabalharia com roupa/moda na minha vida – bem, eu falei que seria sincera lá no título desse texto.

O fato de ser arquiteta ainda pesava muito nas minhas escolhas que, alguns anos depois de ter largado tudo pra me jogar numa aventura, geraram consequências e frustrações profissionais. Voltar ao mercado de arquitetura agora já não seria tão fácil assim – nem todos os escritórios e empresas veriam essa mudança repentina de área com bons olhos, pouco interessava para eles os cargos de “assistente de figurino” que colecionei em alguns desses trabalhos. As oportunidades foram ficando cada vez mais escassas nas duas áreas e foi aí que eu pensei: fodeu. Ah, junto a tudo isso, ainda tinha o fato de eu ainda estar morando no Rio de Janeiro e eu amava tanto, mas tanto aquela cidade, que eu teria de ter um plano muito mirabolante pra não ter que voltar pra Brasília – todo início de ano meu pai jogava um verdinho pra eu voltar. Sempre passou pela minha cabeça ter um brechó, até mais do que ter um escritório de arquitetura. E a única coisa que eu conseguia pensar era “não pode ser tão difícil assim vender roupas usadas, vou ter um brechó e preciso de uma sócia carioca”. Eu sou arquiteta, inventiva, tive experiência com figurino e produção de moda, mas tá aí um negócio que não sei fazer: criar roupas e modelar. Por isso, eu não teria outra saída de negócio senão repassar peças usadas pra frente. Pois é, aqui vai mais um sincericídio, mas a ideia de ter um brechó era bem menos romântica do que só querer salvar o mundo – foi desemprego mesmo. Ah sim, e a sócia tinha de ser carioca, porque era uma garantia que eu tinha de que ela também não iria embora do Rio de Janeiro, e assim eu moraria mais tempo por lá – essa parte é romantismo puro.

Eu havia conhecido a Cynthia numa pós-graduação em produção de moda que havíamos feito juntas. Por coincidência, ela era namorada do Marcelo Lamarca, um graffiteiro do Rio que eu já admirava de longe e paguei muito pau quando descobri que eles eram um casal. Eu curtia o posicionamento da Cynthia durante o curso, porque eu sabia do seu interesse pela moda e a achava muito boa no que fazia, mas não éramos de fato amigas. Alguns meses depois de o curso ter acabado, eu já estava naquele turbilhão de emoções, fritando em solução pra empreender e pra não ir embora do Rio, eu pensei “claro! A Cynthia”. Ela seria a pessoa perfeita pra ser minha sócia: é carioca, tem boas ideias, é dedicada e ainda vou acompanhar o trabalho do Marcelo de perto. Convite feito, convite aceito.

A RAMBLAS era muita coisa na nossa cabeça. Aliás, só de ter um nome forte pra nossa marca àquela época – eu já havia pensado nesse nome há muitos anos e a Cynthia aceitou a sugestão – já era grandes coisas. Não é um nome óbvio, desses que já de cara limitariam o nosso segmento de negócio, e é um nome graficamente fácil de ser lido; “marcas com nomes curtos não tinham aderência e nomes muito longos eram pesados demais (...)”, é o que diz Facundo Guerra em seu livro Empreendedorismo para Subversivos. A gente sempre quis ir além da revenda de peças, a gente queria ser uma agência criativa real, porque quando Cynthia, Marcelo e eu nos juntávamos, era uma enxurrada de ideias que descia o monte com muita força. Cynthia é psicóloga e eu arquiteta, ambas já com certa experiência em produção de moda e styling e ainda carregávamos o Marcelo no bonde, que é criativo e que contribuiu em grande parte nessas ideias.

Eu não sei a Cynthia, mas pessoalmente eu queria que a RAMBLAS fosse muito mais que um brechó na tentativa de superar também uma frustração pessoal – às vezes, eu sentia que subestimava a minha formação de arquiteta e, sim, ainda tinha vergonha de dizer que o meu trabalho (que nem existia ainda pro público) era revender peças usadas pelo Instagram. A RAMBLAS, como todas as marcas pequenas que nascem hoje (falo isso com 100% de segurança), também começou com um Instagram bem discreto. Mas até postarmos a primeira foto no perfil da marca, se não me engano em fevereiro de 2017, foram muitos meses de planejamentos e projetos, muitos desses deixado pra trás, por entendermos que não seria viável executar todos os nossos planos de dominar o mundo. A primeira foto postada veio com o peso do nascimento de um novo negócio e de responsabilidade – foi quando eu senti que aquilo era real. Mas esse foi o primeiro chute no estômago que eu levei: eu achava que bastava ter uma marca bonita. Eu, como profissional da área criativa, fui treinada pra seduzir as pessoas pela estética e pelo belo. Ponto. Por trás de cada foto bonita no Instagram, o que tive que aprender na marra, tem que ter muito planejamento, e não é só de comunicação e de branding que estou falando. Eu tô falando de estoque, eu tô falando de planilhas, eu tô falando de sistema, eu tô falando de dinheiro, eu tô falando de CNPJ, registro de marca, contador, despesas fixas e falando de coisas que talvez eu ainda venha a descobrir.

A RAMBLAS foi se desenvolvendo e a gente foi sonhando com o que ela ainda viria a ser. A Cynthia saiu da sociedade, seguiu outros rumos na arte, e eu continuei tocando a marca ainda lá no Rio de Janeiro. A RAMBLAS ainda era pouca coisa, fiquei muitos meses com o acervo parado durante a minha transição pra Brasília, mas eu tinha que me agarrar à marca, porque se eu não tivesse a RAMBLAS eu, literalmente, não teria mais nada na vida – a.k.a desemprego de novo. Acho que como quase todo negócio no segmento de roupas, ter uma loja física é o grande feito da marca, especialmente para um brechó, pois entendi que a dinâmica de um brechó exclusivamente online tem que ser outra. Com a loja física, eu idealizei que muitos dos meus processos se tornariam mais fáceis (o que é verdade) e que chegaria a minha hora de, enfim, dominar o mundo – haha, a gente ri pra não chorar, né?

A loja não foi estabelecida naquela rua de Botafogo em que eu e Cynthia sonhamos um dia. Voltei pra Brasília e o lugar ideal do momento foi a Asa Norte – era hora de começar de novo numa cidade que eu tinha que reconquistar. Fiz o projeto da loja 100% do meu jeito; desde o desenho dos móveis às etiquetas das roupas, fui eu que fiz e me orgulho de cada detalhe que tem na loja. Ok! Loja linda, nova, cheirosa, peças nas araras, evento de lançamento pronto. Agora é só esperar os clientes virem e descobrirem a RAMBLAS – mais um soco no estômago. Brasília é uma cidade totalmente hostil para o comércio de rua, especialmente para um loja lateral, em que o tráfego de pessoas é praticamente nulo. Aqui vai mais uma dica de ouro e ainda estou em processo de aprendizado: construa a sua comunidade e traga as pessoas até você.

A RAMBLAS ainda caminha num processo de transformação e de evolução, nem lento nem rápido, mas na sua velocidade. Tem dia que a gente escorrega, tem dia que a gente cai de bunda, no outro dia a gente levanta de novo. A RAMBLAS não é integralmente o que eu e Cynthia sonhamos um dia lá no Rio de Janeiro; nem melhor nem pior, mas diferente. A RAMBLAS nasceu do vai-e-vem profissional de uma arquiteta, passou pelo imaginário de duas sócias que sonharam muito e se transformou na casa de muitos clientes que acreditam no potencial e na importância da moda sustentável, tudo feito à nossa maneira. E se você chegou até aqui: obrigada por acreditar na RAMBLAS! Loading...

#blog #brasília #brechóbrasília #brechóasanorte #empreendedorismo #textos #riodejaneiro #modaconsciente

60 visualizações
LOJA FÍSICA

Nossa marca nasceu no Rio, mas nos mudamos para Brasília, onde abrimos nossa loja física. Brechó + Pocket Bar + Tabacaria. Estamos na CLN 411 Bloco C Loja 70.

HORÁRIOS

Seg à Sex: 11h às 20h

​Sáb: Fechado - estamos na rua produzindo!

QUERO RECEBER NOVIDADES RMB!
TENHO DÚVIDAS
  • @ramblasrio
  • facebook/rmbrio
  • ramblastv

© 2023 by Prickles & Co. Proudly created with Wix.com

0